Uma multidão se aglomera na manhã desta sexta-feira (25) em frente ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro para se despedir de Preta Gil. Desde que a cantora faleceu há 5 dias, depois de dois anos de tratamento contra o câncer, as redes sociais estão tomadas de homenagens do público.
Preta conseguiu a proeza de tocar as pessoas muito além de sua arte. Não é difícil encontrar internautas que admitem que choraram com a partida da estrela e o clássico comentário: “parece que perdi alguém da minha família”.
Sem medo de se posicionar, Preta se tornou referência para muitas mulheres gordas, que aprenderam com ela a amar seus corpos, prestou apoio à comunidade LGBTQIAPN+ em tempos onde o assunto ainda era tabu e, mais recentemente, levou informação sobre o câncer colorretal ao público e esperança a pacientes oncológicos.
Mas, afinal, o que explica esse sentimento de luto por pessoas que, muitas vezes, não chegamos a conhecer pessoalmente? O Purepeople entrevistou José Yuri de Souza Feijão, psicólogo clínico com foco em psicanálise (CRP 05/68921) e mestrando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Confira a seguir.
Por que muitas pessoas sentem como se tivessem “perdido alguém da família” quando uma celebridade morre?
Esse fenômeno, absolutamente comum entre os brasileiros e os coreanos, tem nome: relacionamento parassocial. Basicamente consiste em uma série de identificações e projeções que os fãs estabelecem com seus ídolos, que personificam ideias, estilos de vida, fases da vida em que estabelecemos algum tipo de vínculo.
A construção dos vínculos parassociais possuem poder emocional real, ainda que sejam unilaterais (do fã ao ídolo), pois ativam diversas sensações das pessoas, como o pertencimento, sentimentos como alegria, raiva, tristeza, entre outros. Ao nos deparamos com um ídolo que nos deixa, surge um corte abrupto sobre aquela imagem que foi construída e adorada, gerando uma sensação de vazio e perda afetiva.
Quando falamos sobre as relações fã-ídolo nos referimos ao “luto parassocial”, nomeado por autores como Donald Horton e Richard Wohl. Apesar de não estar listado em manuais como o DSM ou CID, essa é uma forma de enlutamento que enfrentamos na contemporaneidade, construído, principalmente, por conta da superexposição das figuras públicas por paparazzi ou pelas redes sociais.
Que papel a trajetória de luta contra o câncer, vivida em tempo real, teve na intensificação dessa dor coletiva?
Preta não foi uma personalidade que escondeu seu processo de adoecimento, o que torna todo o processo mais humanizado. Partindo disso, vimos momentos em que se percebia uma vitória sobre o câncer, quando ela anunciou que a doença estava em remissão. Ela, sem dúvidas, se tornou uma figura de amparo para diversas outras pessoas que compartilham da mesma enfermidade, graças, por exemplo, às diversas entrevistas onde ela comenta sobre sua relação com o adoecimento, com o tratamento e com a morte.
Esse mesmo envolvimento prolongado sobre os sofrimentos, recaídas e pequenas vitórias no tratamento constrói uma narrativa de identificação coletiva muito forte, tornando a perda mais presentificada.
Esse tipo de comoção coletiva ajuda as pessoas a lidarem melhor com as próprias dores?
Não é possível prever como as pessoas irão reagir a tais acontecimentos, contudo, atravessar tais momentos em coletivo pode ser interessante. Em grupo, encontramos elementos como o senso de pertencimento e de validação sobre os próprios sentimentos. Mas é importante relembrar que, por ser um processo pessoal, também se faz necessário que cada pessoa tenha seu espaço para que possa processar suas perdas à sua maneira, para que não ocorram situações, como comparações sobre os processos.
A comoção coletiva pode ser uma oportunidade para promover reflexões sobre a vida, os vínculos e a própria mortalidade?
Sem dúvidas, a morte de uma personalidade famosa, por uma doença perigosa e em uma idade que não se espera um falecimento, escancara algo que não somos acostumados a conviver: a finitude de todas as vidas. A cultura ocidental não costuma abordar sobre tais temáticas, o que pode tornar essas reflexões confusas. Se deparar com a morte faz com que também pensemos na nossa própria finitude, o que pode tornar esse momento extremamente ansiogênico.
O que pode ajudar o público a ressignificar essa dor?
É impossível ressignificar essa dor sem de fato senti-la em um primeiro momento. Junto desse processo, é possível que cada pessoa a simbolize de uma forma única. Se tratando de fãs, uma movimentação importante pode ser manter a arte produzida pela Preta viva, consumindo as músicas, clipes e outros conteúdos, e continuar dando seguimento às pautas que ela também seguia, como a luta pela expressão da sexualidade, discussões raciais, feministas e sobre combate à gordofobia.